O que é fazer nada? Aliás o que é não fazer nada (ainda vou entender esse negócio da língua portuguesa que é a dupla negação)? Sempre que nos deparamos com a idéia de que não estamos fazendo nada, estamos fazendo algo no momento. Assistir o Domingão do Faustão, comer pizza fria, pensar (nessa categoria incluo pensamentos úteis como: pensamentos tristes e traumatizados, planos infalíveis, lembranças amorosas), brincar com o cachorro são atividades desprezadas do título de "fazedoras de algo" quando na realidade são algo, que podem ser não dotadas de valor para alguns, mas cheias de valor para outros.*
Não desejo perder o foco do texto, do blog, da minha vida. Eu acho sinceramente que esses atos são nada. Na verdade, serei ainda mais sincero, deixei de achar que esses atos são nada. Arranjei um estágio, pensei que ia virar uma pessoa trabalhadora e responsável, mas o mundo conspirou contra isso e virei um refém da atividade de fazer nada. Sabe quando dizem que funcionários públicos não fazem nada? Eu sou a exceção da regra, vocês podem não acreditar, mas meus chefes trabalham para não me deixar trabalhar, acho difícil encontrar alguém na mesma posição que minha pessoa (tirando meu cunhado, outro estagiário que eu sei que não faz nada mesmo). Daí a inspiração desse espaço, acho que essa minha sina vespertina é um ato demais transgressor e rebelde para passar despercebido. Estou cometendo uma heresia contra o capitalismo, a produtividade, a humanidade. Minha única atividade é a contemplação, eu contemplo minha mesa, esse computador e vez ou outra algum texto que deveria estar lendo para meu curso de graduação. Deixei de contemplar a atividade à minha volta por não querer parecer intrometido e por ser uma atividade demasiadadamente entendiante. Meu intuito é destrinchar toda a metodologia, os objetivos, a filosofia e a lógica por trás da ação da não ação. Acredito que o que motiva as pessoas escreverem (fora os jornalistas e todos aqueles que fazem do ato de escrever o seu modo de ganhar dinheiro) é o ócio, o pensamento entre as atividades, idéias despropositadas que não estavam progamadas em seu planejamento produtivo e/ou pessoal. Logo, me comprometo a só escrever nos momentos em que não estiver produzindo (o que não é difícil dado que ninguém consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo, no sentido mais amplo da palavra fazer que não engloba atividades como mastigar e falar e ações involuntárias do corpo) , escrever apenas quando o ato de não fazer estiver em vigência. Vida longa (ou não. Não sei) à inação.
* Ia incluir ouvir música nessa lista, ma me recuso a admitir que ação tão nobre, cultural, inspiradora e engrandecedora de espírito possa vir a ser considerada uma inutilidade.

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